Pneumologista explica o que não não fazer após diagnóstico positivo para Covid-19

As incertezas trazidas pela pandemia têm conduzido pacientes com diagnóstico positivo para a Covid-19 a tomarem decisões que nem sempre são as mais adequadas para o tratamento da doença. Abusos no uso de medicamentos considerados ineficazes ou sem comprovação atestada por autoridades de saúde, além da preocupação em fazer exames de forma precoce são algumas das iniciativas que, ao invés de funcionarem como aliadas na recuperação do paciente, podem agir como agravantes do novo coronavírus no organismo. 

“A ansiedade que vem associada ao diagnóstico faz com que bata um certo desespero. Não tem quem não fique angustiado e isso tem levado as pessoas a tomarem medicamentos de forma desnecessária ou no momento errado da doença, assim como a fazerem exames desnecessários”. É o que atesta o pneumologista João Queiroga, integrante do Instituto de Pneumologia do Recife (Impar), que funciona no Real Hospital Português, no bairro de Paissandú, área central da capital pernambucana. Para ele, além do momento de calamidade de saúde, existem três pontos no período pós-diagnóstico da doença que ainda não são bem compreendidos pelos pacientes. 

O uso de antibióticos é um deles. Segundo o pneumologista, a falta de conhecimento sobre o vírus contribui para o uso desnecessário dos medicamentos.  “Geralmente a virose dá febre por dois, três dias só. Covid é um dos poucos vírus que dão febre prolongada e isso incentiva ainda mais o uso inadequado de antibióticos. Mas tem que lembrar que trata-se de uma infecção viral e quem usa antibióticos como Azitromicina, Zinnat e Levofloxacino, tem que saber que eles não têm ação contra o vírus. Muitas vezes o paciente, em questão de uma semana de Covid, toma três antibióticos achando que vai resolver, e passa a ter efeitos colaterais”, explica. 

Para ele, tal comportamento se tornou cultural no período pandêmico. “Começa uma dor de garganta e o paciente já quer tomar antibiótico. A gente vê esse uso sempre sendo extrapolado. O uso inadequado de antibióticos acabou se exacerbando durante a pandemia”, pontua. 

O segundo problema identificado é o uso precoce de corticoides. Os medicamentos, que têm ação antiinflamatória, interferem na imunidade do paciente. De acordo com Queiroga, existem benefícios do uso deles nos pacientes graves, que estão com necessidade de oxigênio ou com febre prolongada, por exemplo. 

“O erro é que as pessoas estão iniciando o uso do corticóide de forma precoce, às vezes no terceiro dia de sintomas. Como o corticóide tem uma ação que reprime a imunidade, o paciente pode estar ajudando o vírus”. Essa ajuda, segundo o pneumologista, pode se materializar no prolongamento do tempo de circulação do vírus no organismo, levando, consequentemente, o paciente a um quadro mais grave da doença. 

“Corticóide usado na primeira semana de doença é um erro que tem sido cometido comumente. Não é para todos os pacientes, só para aqueles que entram na fase mais inflamatória da doença, principalmente para os que estão precisando de oxigênio. É usado para baixar a inflamação quando ela está alta. Ele não vai prevenir que a inflamação progrida”. 

Exagero de tomografias pode expor demais à radiação
Os erros cometidos por muitas pessoas com diagnóstico positivo para Covid-19 não se resumem apenas ao uso – e abuso – de medicamentos que podem até agravar o quadro. De acordo com o pneumologista João Queiroga, também houve um aumento exponencial, muitas vezes desnecessário, da realização de tomografias, o que chama atenção para outro contratempo no combate à Covid-19.  

“A gente tem visto as pessoas fazerem muitas tomografias no primeiro, segundo, terceiro dia. Ou vai dar normal ou vai dar com um acometimento muito leve. Lá na frente, se o paciente precisar de uma tomografia de verdade, já vai ter feito exame demais e sabemos da quantidade de radiação. Então, é importante que a tomografia seja feita por paciente com febre mais prolongada, falta de ar, dor no peito, os pacientes que estão mais graves”, alertou. “Eu tenho um paciente que está internado e a esposa dele está ótima, no décimo dia, sem sintomas, mas vai fazer uma tomografia. Disse que iria fazer para ficar tranquila”, exemplificou. 

Cada caso de Covid-19 exige ser avaliado de forma particular, mas, de acordo com o pneumologista, os exageros, que acontecem ainda em decorrência também da desinformação, devem ser combatidos. “Isso ocorre muito por conta da incerteza que existe em relação à doença e o medo. Cada pessoa evolui de uma forma, e ainda não conseguimos prever o paciente que vai evoluir mal ou aquele que vai ter um quadro leve. As pessoas ficam muito ansiosas e procurando respostas, dados a mais. Existe uma emoção muito forte e isso acaba levando a exageros”. 

Fonte: Diário de Pernambuco