Jovem que pedia carona e livros emprestados para estudar e se formou na UERN passa em concurso para juiz

O jovem de 28 anos, que pedia livros emprestado para estudar, foi aprovado para o cargo de juiz de direito no TJPA

Karolini Bandeira* – Sabe aqueles casos que são um exemplo vivo de esforço e motivação? A história de João Paulo Barbosa Neto, de 28 anos, é um deles. Crescido em Itaiçaba, um município no interior do Ceará com aproximadamente 7 mil habitantes, João nunca parou de sonhar.

No ensino médio, cursado em escola pública, tinha vontade de ser engenheiro, médico, nutricionista e administrador. O que ele não imaginava, naquela época, é que estaria na posição que se encontra hoje: recém aprovado para o cargo de juiz de Direito no Tribunal de Justiça do Estado do Pará (TJPA).

Em entrevista ao Papo de concurseiro, João Paulo falou um pouco sobre a jornada que trilhou até a aprovação (que não foi nada fácil) e ainda deu dicas aos concurseiros que sonham chegar onde ele chegou. Confira:

Vocação

João pensou em vários outros ramos antes de decidir que queria cursar Direito. Chegou a fazer um período de engenharia antes de ingressar no curso da atual área de atuação: “Direito foi a última, e melhor opção, para mim. Fui me identificando naturalmente com a carreira de Juiz de Direito ao estudar, na faculdade, o que cada uma das carreiras jurídicas fazia no dia-a-dia, bem como observando isso no fórum”. Na época, havia sido aprovado em duas universidades públicas, Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA) e Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), optando pela segunda por ter a oportunidade de concluir o concurso em uma duração menor.

Desafios

João teve que ultrapassar muitos desafios para chegar onde está hoje. Após finalizar o ensino médio em sua cidade natal, que na época não tinha faculdades, se mudou para Mossoró, no Rio Grande do Norte, em busca de uma graduação.

Longe de casa e dos pais, o estudante passava por dificuldades para frequentar a UERN: “Em Mossoró, em matéria de locomoção, a luta foi grande. A cidade é dividida por um rio, e pontes ligam o lado leste ao lado oeste da cidade. Os campus universitários ficam em um lado e eu morava em um outro lado da cidade. Morava de favor com uma tia minha”.

Para ir às aulas, sem carro e ônibus, João teve que recorrer a outros meios: “Eu ficava à beira da estrada esperando alguém me dar carona. Em uma ocasião em que havia uma prova, um policial militar me levou, gentilmente, em uma viatura. Nunca mais o vi para agradecer. Outra vez, foi um carro sem banco, e eu fui sentado no piso do veículo. E outra vez foi no carro do reitor da universidade. Todo dia era uma aventura”.

Segundo o mesmo, era comum na época alunos sem meio de transporte receberem carona à universidade: “Era uma espécie de ciclo do bem. Hoje eu pego carona para conseguir me formar, amanhã eu dou carona. O Reitor mandou confeccionar na época uma placa com o nome ‘Carona Amiga’ para oficializar essa iniciativa solidária de se dar carona aos alunos”.

Além da dificuldade de locomoção, João Paulo muitas vezes teve que estudar com livros emprestados da biblioteca e faltar congressos da faculdade: “Eu não tinha como viajar para participar de congressos. Os livros de Direito eram caros. E eu passei pela publicação do novo CPC durante a faculdade. Não tinha como me manter atualizado. Então, eu pegava livros emprestados na faculdade ou com colegas. Eu não passei maiores dificuldades por que os meus pais faziam qualquer sacrifício para investir em minha educação”.

Após a graduação

Os desafios não acabaram com o fim da faculdade. Após graduado, João Paulo teve de iniciar outra batalha: a do mercado de trabalho. “Depois da graduação começou outra luta. Eu não podia voltar para o interior do Ceará porque lá não tinha mercado profissional, então saí em vários escritórios de advocacia atrás de emprego. Tentei atuar como assessor. Mas a autoridade nomeante nomeou outra pessoa e disse que me chamaria depois, caso houvesse necessidade. Até hoje, nada. Eu não tive sorte para cargos em comissão. Só naqueles que a gente passa mesmo pelo mérito”, relembrou. “Então, aluguei uma sala e comprei uma mesa e um computador. Passei quatro anos advogando por conta própria”.

Foi aí que João decidiu investir em concursos: “As duas primeiras provas da magistratura estadual que fiz, eu fiquei por um ponto da nota de corte na primeira fase. Depois, passei em seis primeiras fases (TJPR, TJAL – concurso suspenso- TJMS, TJRJ, TJAC, e TJPA). Estou aguardando a segunda fase do TJRJ e TJMS. NO TJPR, fiquei na segunda fase. No TJAC estou aprovado para a prova oral. E no TJPA já fiz a prova oral e fui aprovado com 9,40”.

Ele conta que passar em um concurso público já era a vontade do candidato há muito tempo. “Assim que eu entrei na faculdade de Direito eu já coloquei como propósito fazer concurso para Juiz. Fiz a graduação no menor tempo permitido para começar a contar tempo para o cargo almejado. Em quatro anos, adiantando disciplinas, eu estudava pela manhã e pela noite”.

Ele admitiu também que, não se dedicou aos concursos assim que saiu da faculdade pois precisava se manter: “Foi muito cansativo. Inicialmente, quando estava começando na advocacia, em 2016, tinha que trabalhar muito, por isso não estudava ainda de uma forma consistente e organizada. Em 27 de novembro de 2017, eu decidi empreender todo esforço rumo à magistratura e só parar quando tivesse sido aprovado”. E esse momento chegou dia 31 de agosto, quando o resultado final do concurso TJPA para juiz de direito foi divulgado.

Dicas

Aprovado em um e aguardando a finalização de outros concursos, João Paulo dá dicas para quem está na mesma jornada que ele: “Eu diria que entrem de cabeça nos estudos, e não parem. Às vezes, os resultados não aparecem como desejamos pelo fato de pararmos um tempo e depois de um mês ou mais retomarmos os estudos. Mesmo que o candidato tire um resultado ruim em uma prova, ele não deve parar de estudar. Lamente um dia. Dois, no máximo. Depois siga! Seus nobres objetivos são maiores do que a sua dificuldade”.

Algo que ajudou ele, além do árduo estudo, foi participar de fóruns de concurso e conversar com pessoas com o mesmo objetivo: “Eu visito muito os fóruns do Papo de Concurseiro e eles me ajudaram muito durante toda a preparação. São um local excelente para a gente interagir com os colegas sobre concursos”.

Papo de Concurseiro/Justiça Potiguar