Brasil vive mês mais letal da pandemia, com a piora no atendimento de pacientes: “Muitos não morreriam”

Março de 2021 nem terminou e já é o mês mais letal da pandemia no Brasil. Neste domingo, foram registradas 1.656 mortes por coronavírus nas 24 horas anteriores ―um recorde para o dia, após uma semana em que foram contabilizados mais de 3.000 óbitos diários em três dias distintos, levando o total de vítimas para 312.206 no país.

Além da dramática escalada de mortes por covid-19, outro drama ganhou uma proporção maior no período: a fila de pacientes infectados pelo coronavírus à espera de um leito hospitalar. Enquanto as autoridades vem anunciando seus esforços para ampliar o sistema de saúde e as taxas de ocupação até indicam uma pequena margem para receber pacientes, na prática, a constatação é de que a estrutura não tem dado conta da demanda crescente.

Mais de 6.000 pessoas aguardavam especificamente por uma vaga em unidades de terapia intensiva (UTI) em todo o país na semana passada. Nem mesmo São Paulo, a cidade mais rica do Brasil, escapa do caos no pior momento da crise sanitária.

Fonte: MSN

Na última quinta-feira, ao menos 1.040 pessoas esperavam por um leito de UTI ou de enfermaria exclusivos para covid-19 em hospitais municipais e, embora todos os dias cerca de 200 vagas sejam abertas ou desocupadas, a fila de espera não fica abaixo de 1.000 pessoas há cerca de duas semanas.

Morrer sem ter chance a um atendimento adequado para tratar a doença é uma realidade e especialistas apontam a urgência de estancar o contágio com o endurecimento das medidas de distanciamento social (enquanto a vacinação caminha lentamente) é a única saída para minimizar a crise.

Até a sexta-feira, ao menos 508 pessoas aguardavam por um leito de UTI na capital paulista, ainda que tenham sido criadas 292 vagas deste tipo na cidade de São Paulo neste mês. O gargalo se estende até mesmo na fila dos leitos clínicos ou de enfermaria, que, embora sejam destinados a pessoas com quadro de saúde moderado, já absorvem também os casos graves.

O EL PAÍS teve acesso a dados do sistema de regulação municipal que mostram que, na tarde da última quinta, 736 pacientes esperavam por uma vaga de enfermaria na capital paulista. Naquele mesmo dia, o prefeito Bruno Covas (PSDB) anunciou a criação de leitos em universidades da cidade, que mantém em 91% a taxa de ocupação de UTIs e tem 82% de leitos de enfermaria utilizados atualmente.

A fila de espera é dinâmica e o número exato muda a cada momento. A central de regulação municipal funciona 24 horas sem parar, e os chamados reguladores estão o tempo todo avaliando prontuários e pedindo vagas aos hospitais municipais que, por sua vez, respondem se podem ou não receber mais pacientes.

As transferências dependem se há estrutura para o transporte seguro, das condições do hospital e do quadro clínico do paciente. Como o momento é de escassez, há muitas negativas mesmo com os dados gerais de ocupação não chegando a 100%.

Na prática, várias unidades de pronto-atendimento (UPA) da cidade estão com pacientes em estado grave e intubados. A cara do colapso no sistema de saúde ainda passa pela escassez de medicamentos, de oxigênio e de leitos, além da limitação de equipes especializadas até mesmo nos hospitais mais estruturados.